Coronavírus em Nampula

Partilhamos o testemunho que recebemos da Ir. Maria da Assunção em Nampula, durante este tempo em que enfrentamos a pandemia covid 19.

Queridos amigos

Espero ardentemente que o coronavírus não tenha entrado nas vossas casas nem nas vossas famílias e que todos se encontrem bem.

A carta que vos escrevo hoje, tem necessariamente que ser diferente de todas as outras, dada a situação que estamos a viver a nível mundial. Achei que tudo o que se chame “solidariedade” pode ajudar a erguer o nosso pensamento para o Céu, implorando ao Senhor para que tenha piedade do seu povo!

Como devem ter acompanhado pelos meios de comunicação social, Moçambique manteve-se muito tempo livre do vírus. Com um pouco de optimismo, ao ouvir que o vírus se tem desenvolvido principalmente em climas frios e secos, pensávamos poder escapar… Mas os países vizinhos, principalmente África do Sul, já contavam muitos doentes. E chegou a vez a Moçambique, com os casos a aumentar em cada dia…. Sabendo que o estado não tem capacidade de fazer muitos testes, estima-se que o número de infectados seja muito superior aos casos confirmados.

As escolas e centros infantis estão fechados desde o dia 23/03, foi decretado Estado de Emergência de 1 a 30 de Abril e renovado até 30 de Maio. A minha principal preocupação aqui, é que a maioria das crianças não têm casas em condições onde possam ficar: são muito pequenas em relação ao tamanho do agregado familiar, muitas sem nenhuma janela, nem electricidade, quando muito só uns pequenos postigos com uns 20 a 30 cm. E se a mãe (ou avó, por vezes o pai, quando existe) não sair à rua a tentar fazer algum negócio, vender os seus fritos ou bolinhos, carregar areia às costas para vender para construção ou carregar os volumes de quem chega, em casa não há comida – e a fome mata milhares de crianças por dia, muito mais que o coronavírus…

Desculpem, não estou a tentar desvalorizar essa horrível pandemia, que nos toca a todos. Mas estou preocupada com os “meus” meninos. O Centro, cumprindo as leis do estado, fechou as portas às crianças. Mas mantivemos o Centro aberto com alguns funcionários de cada vez, para evitar os assaltos e também para podermos ajudar os que vêm pedir socorro, para carimbar as receitas dos que precisam de medicamentos, para poderem ir à farmácia sem dinheiro, ou para acudir em situações de fome, de casas caídas, ou outras. Mas aqueles pequeninos do Jardim Infantil, que todos os dias tinham a sua papinha enriquecida a meio da manhã, os 150 escolares que vinham diariamente tomar o pequeno almoço por não terem comido nada em casa, já não podem vir! Ficam em casa, enrolados num canto, quando as mães os conseguem segurar…. Ou continuam na rua a brincar com os amiguinhos, alheios ao perigo de infecção.

A ordem de encerramento das escolas e Centros infantis chegou numa 6ª feira à tarde, quando a maioria das crianças já tinha ido para casa. Na 2ª feira seguinte, já não podíamos abrir. Não tivemos tempo de organizar nada com as mães…. Ficámos preocupadas, doía-nos o coração! Não podíamos simplesmente meter-nos em casa, todas bem protegidas e deixar os nossos meninos entregues à sua sorte – mas também não podíamos desobedecer e acolhê-los no Centro! Demos voltas à cabeça a pensar o que fazer, eu e as outras irmãs com quem vivo em comunidade. Decidimos comprar mantimentos e entregar às famílias, para lhes irem dando em casa. Numa primeira fase, comprámos 1.200 Kg de arroz (não conseguimos comprar farinha, que estava esgotada) e bastantes caixas de sabão, que temos distribuído às famílias mais pobres, ao mesmo tempo que lhes damos algum esclarecimento quanto à maneira de se protegerem. Vêm em pequenos grupos e aprendem como devem lavar as mãos e evitar ajuntamentos. Renovámos a oferta algum tempo depois e queremos continuar a renová-la tantas vezes quantas forem necessárias e na medida que tivermos capacidade.

Ainda conseguimos ir às compras, mas temos medo que tudo esgote, porque não faltam os açambarcadores que compram tudo e deixam as lojas vazias… Se estiverem completamente fechadas as ligações com os outros países, Moçambique não se basta a si próprio e temos na nossa frente o espectro da fome para todos nós.

Bem, não quero ser muito pessimista. Estamos nas mãos de Deus!

O meu agradecimento para todos os que nos têm ajudado e o desejo ardente de que se mantenham com saúde.

Com amizade e gratidão

Ir. Mª da Assunção